Durante séculos, o corpo humano foi educado a se esconder. Vestir-se não era apenas uma necessidade climática ou social — era um ato moral. Mostrar a pele significava culpa, vergonha ou transgressão. O naturismo, porém, nasce justamente como uma resposta a esse modelo: não como provocação sexual, mas como reconciliação entre o ser humano, seu corpo e a natureza.
Essa história começa na Europa, no final do século XIX, em um momento de profundas transformações sociais.
A Revolução Industrial alterou radicalmente a vida nas cidades. Jornadas exaustivas, ambientes fechados, poluição e sedentarismo passaram a afetar diretamente a saúde física e mental das populações urbanas.
Ao mesmo tempo, predominava uma moral rígida, especialmente sobre o corpo. O contato com a nudez era reprimido, e o corpo passou a ser visto como algo a ser controlado.
Foi nesse cenário que médicos, educadores e filósofos começaram a questionar: o afastamento da natureza estaria adoecendo o ser humano?
Na Alemanha, surge o movimento conhecido como Freikörperkultur — Cultura do Corpo Livre. A proposta era simples e revolucionária: o corpo nu deveria ser visto como natural, saudável e igualitário.
Pensadores como Heinrich Pudor e Richard Ungewitter defendiam que a nudez coletiva:
Para eles, o problema não era a nudez — era o olhar condicionado pela repressão.
Paralelamente, a medicina natural ganhava força. A helioterapia — tratamento por meio da exposição ao sol — passou a ser recomendada para diversas doenças.
Um dos nomes mais citados nesse contexto é Arnold Rikli, que defendia a tríade: água, ar e luz solar
Nesse momento, a nudez deixa de ser símbolo e passa a ser funcional. Não havia erotização, apenas a busca por saúde e equilíbrio.
Na França, o naturismo assume um tom mais filosófico e comunitário. Ele se conecta a ideias de:
Um dos nomes importantes é Émile Gravelle, e um dos marcos históricos é a criação de comunidades como a Île du Levant, que se tornaria referência mundial.
Ali, o naturismo não era apenas tirar a roupa — era repensar a forma de viver.
O avanço do naturismo não foi linear. Regimes autoritários tentaram controlar ou extinguir o movimento. Em alguns períodos, ele foi associado indevidamente a ideologias extremas ou tratado como ameaça moral.
Ainda assim, sobreviveu graças ao seu caráter:
Após a Segunda Guerra Mundial, o naturismo ressurge com força, agora vinculado à defesa dos direitos individuais e da liberdade do corpo.
Em 1953, é criada a International Naturist Federation, responsável por estabelecer normas claras de convivência.
Entre seus princípios fundamentais:
Esses valores permitiram que o naturismo se expandisse para diversos países, adaptando-se a diferentes culturas sem perder sua essência.
O surgimento do naturismo revela algo maior do que a simples retirada das roupas. Ele expõe uma pergunta que continua atual:
Por que o corpo ainda incomoda tanto?
O naturismo nasce como uma resposta a essa inquietação — não como provocação, mas como convite à aceitação, à igualdade e ao retorno a algo essencialmente humano.
Hoje, em um mundo marcado por padrões estéticos rígidos e ansiedade corporal, essa história ganha novos significados.